Meia-hora


Eu jurei a mim mesma que não escreveria sobre isso. Jamais. Mas aqui estou eu. Mal comecei esse texto e já falei de você. Comecemos do começo então.

Alguém me disse uma vez que quando dois mundos se colidem acontece uma guerra. Fico imaginando se foi isso que aconteceu quando nos conhecemos naquela noite quente e mágica de dezembro. Eu não fazia ideia. Não fazia ideia de que iria estar na merda. Mas a gente nunca faz, não é mesmo?

Como sempre, você surgiu do nada. Eu estava sentada na escada do meu lugar favorito e aquele garoto idiota derrubou o copo de vidro nas minhas costas, me molhando inteira. E você viu, de longe. Veio correndo para ver se eu estava bem. Eu menti e disse que precisava de alguém que me levasse ao hospital. Você acreditou e se ofereceu para me ajudar. Comecei a rir e você ficou puto. Mas isso não durou três segundos. Depois, você estava rindo também. Trinta minutos. Levou trinta minutos para que eu me apaixonasse por você.

Você me chocou. Eu fui o seu lapso de memória, a sua confusão. Sua baguncinha fodida. Seu dano colateral. Enquanto você foi – e continua sendo – a primeira coisa em que eu penso antes de dormir. Nunca vou entender o porquê da gente ser tão errado um para o outro. Mas sei que se não fossemos isso, nunca teríamos dado certo. Nem ao menos por um tempo. Alguns dias. Algumas noites.

Você me tirou do tédio. Me tirou do tédio insuportável que senti durante a minha vida toda. E agora eu simplesmente não consigo ter outra noite normal sem esperar você entrar pela porta. Eu não consigo mais me contentar com uma noite tranquila. Eu preciso de você. Preciso de você para deixar a minha noite válida. Preciso que você jogue balões de água nos outros na madrugada, enquanto eu morro de rir um pouquinho só pra não ter que morrer completamente. Preciso que você me puxe pela mão de novo e saia comigo sem ao menos me falar para onde estamos indo. Quero que você me surpreenda ao me ligar no meio da noite só pra me contar que se lembrou daquela vez que mentimos para todo mundo só para rir da cara deles. Deus, como eu sinto falta disso. Sinto falta, então faço tudo que posso fazer. Escrevo. Porque escrever é enfiar a mão inteira pela garganta e ir tirando cada pedaço seu que ficou preso nas minhas entranhas. Então eu vomito todas as palavras nessa página em branco, que pronto se tornam uma tinta preta incrustada em minha pele. Quis arrancar sua página da minha vida, mas percebi que você não está nas páginas. Você está na tinta. Você é a tinta.

Sou o que escrevo. E escrevo o que sou. O que fui. O que fomos.

Texto escrito por Monica Sperandio

Comentários

  1. Oie,
    Adorei o texto querida.
    Foi vc mesma que escreveu?

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    Respostas
    1. Oi Vanessa!
      Não, não. Foi a Monica Sperandio. =)
      mt lindo, não?
      beijos

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  2. Oi!
    Bacana o texto,uma linguagem de impacto,sem reservas.
    Bjos Fabi
    http://roubando-livros.blogspot.com

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  3. adorei o texto!
    ela escreve muito bem!

    beijos - Rascunhos e Borrões

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