Palavra de Autor - Camille Thomaz: “Gol de Saia Longa"


Olá pessoal, como estão? Nesta sexta-feira, você poderão ler um conto escrito pela autora Camille Thomaz, intitulado ''Gol de Saia Longa". Confiram:

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  Mágica. A primeira vez que acreditei nela, ainda que todo mundo tivesse me avisado. Sempre achei que fosse mentira, mais uma daquelas que vemos em filmes, lemos em livros e imaginamos que nossas amigas estão delirando quando falam sobre ela. Os olhos fixos no ontem, nebulosos, revivendo o momento. O frio na barriga é que as trás de volta a realidade, piscando e sorrindo de forma boba. 

 Comigo foi diferente. Não aconteceu naquela primeira vez, ou segunda ou terceira. Nem com o primeiro ou segundo garoto. Foi com um terceiro, e ele era homem. Com seus vinte e oito anos, um emprego e uma vida social. Alto, olhos castanhos, de uma cor que me fez pensar no universo: escuro e infinito. Certamente malhava, seu porte grande e protetor com músculos sem exagero. Confortável.

  Nina tinha me convidado para assistir ao jogo do flamengo em um bar, na esquina da rua dela. Fui a pé, já que moramos perto e vinte minutos de caminhada não me fariam mal. Chegamos meia hora antes do apito que indicaria o início do jogo. Sentamos relativamente perto da tv, pedimos cerveja e conversamos sobre roupas. Os poucos homens que conseguiam nos ouvir em meio ao barulho, olhavam como se estivéssemos no lugar errado, na hora errada.

  Logo não avisa espaço para que se sentassem. Letícia e Pamela, cujos nomes descobrimos depois, pegaram os últimos dois lugares, deixados propositadamente à nossa frente. Cinco minutos. Tempo suficiente para pedir mais cervejas - quatro, não duas - e falarmos sobre a última tendência da moda. Saias longas estavam de volta, cores quentes e misturadas eram necessárias nos nossos armários.

  Todavia o jogo tinha começado, e nossa atenção se voltou para a grande televisão presa à parede. O volume alto, para que todos pudessem ouvir. E logo palavrões soltos começaram a tomar conta do local. Final de campeonato deixava todo mundo na expectativa, mesmo com um time que precisava melhorar. Ali, todos nós torcíamos pelo mesmo time, vermelho e preto, carioca.

  Nina foi a primeira do grupo a extravasar sua raiva contida. Levantou da cadeira, apontando a lata para a televisão, gritando como "aquele imbecil conseguiu não pegar a porra da bola". Olhos quase assustados viraram para nós por alguns segundos. Preciosos segundos que eu estendia meu dedo para o jogador, com o rosto concentrado e sério.

  Falta. Meu "puta que pariu" chamando novamente atenção, agora com alguns sorrisos dos que não estavam ocupados gritando coisas piores. O sorriso dele, que quase deixei de notar. Letícia se remexia na cadeira, discutindo com Nina sobre os erros. Pamela, ainda concentrada, foi a única de nós que viu quando a bola passou para um, dois, três, quatro jogadores antes de ser chutada ao gol.

  Foi na trave. E ela expressou sua frustração em um grito longo que não fez mais ninguém nos olhar. Já fazíamos parte do grupo. Mesmo sendo mulheres, mesmo que tenhamos discutido sobre modelos com saias que quase cobriam os pés pouco antes. Agora já estavam acostumados com nossos shorts (eu e Letícia) e calças jeans (Nina e Pamela) combinados com blusas femininas levemente esportivas.

  O banco atrás de mim vagou, levando-o a se levantar e ocupar o espaço. Só notei quando o Flamengo fez o primeiro gol e todos nós levantamos gritando e distribuindo abraços em pessoas que nunca tínhamos visto antes. Abracei-o. Mas, diferente do que o esperado, senti suas mãos envolverem minha cintura durante em dez segundos que pareceram durar seis vezes mais. E era eu que vivia aquilo, não uma amiga que divagaria sobre o ocorrido depois, com um suspiro apaixonado que duraria no máximo uma semana.

  Veio o intervalo, no qual trocamos algumas palavras sobre o jogo, pedíamos mais uma cerveja e ficamos em silêncio, trocando olhares discretos. Eu pelo menos, ele apenas me encarava. Os olhos me encantando nos breves momentos que não desviava o olhar. Retomar o assunto ficou para depois do segundo tempo.

  Os quarenta e sete minutos mais angustiantes do campeonato inteiro. O bar inteiro contou alto os dez últimos segundos, os que definiriam que o título seria nosso. E foi. O gol do outro time saiu logo após o término da prorrogação, mas não empataram. Nós ganhamos e ponto final.

  Os gritos tinham diminuído, assim como a quantidade de pessoas que suavam pelo calor. Renan se apresentou. Letícia, Pamela e Nina se despediram. Ficamos o mais a sós que era possível naquela situação. Não pedimos cerveja mais. Apenas conversamos.

  Na despedida foi que aconteceu. Senti ele se aproximando mais. Minha pele formigava por onde sua mão passava para me segurar contra ele. A outra mão em meu rosto, acariciando minha bochecha.

- Você é linda, Anastacia. - sussurrou, com seu rosto quase colado ao meu.

  Meus olhos perdidos nos dele. Meu coração acelerado. Minhas mãos paradas ao lado do meu corpo, sem se lembrar para onde deveriam ir. Seus lábios enfim junto aos meus, numa carícia como música lenta fazia com meus ouvidos. Apesar de todo barulho no local, eu não ouvia mais nada.

  Seu braço me puxou para o corpo dele e o beijo deixou de ser leve, continuando carinhoso. Separamo-nos quase sem ar. Encostei a cabeça em seu peito, sentindo o coração batendo mais rápido que o normal. Suas mãos acariciando minhas costas, enquanto as minhas o prendiam a mim.

  Segundo ele, meu marido depois de dois anos namorando, aquela foi a primeira vez que se sentiu, de alguma forma, completo. Ele ainda não sabe como minhas pernas ficaram bambas, quanto tempo passei falando sobre o momento, com o olhar nebuloso repassando o que aconteceu. Quantos sorrisos bobos dei. Isso é meu segredo.

  Pelo menos por enquanto. Ele sabe que vou contar sobre aquele dia tão improvável quando formos comemorar somente o fato de estarmos juntos - uma desculpa para justificar o jantar à luz de velas que prepararemos mais tarde.