[De Repente dá Certo] O dia que o amor acabou

 No dia que o amor acabou eu não tive tempo de arrumar a cama, nem de decidir se eu queria pintar minhas unhas de azul ou vermelho. Não tive tempo de olhar se meu cabelo estava no lugar e nem de tomar o café que eu tomo todos os dias. O dia acabou e eu percebi que pela primeira vez eu tinha me esquecido de lembrar de você. Olhei pro lado e você não tava mais aqui. Olhei pra dentro de mim e tentei te encontrar. Nada. Olhei embaixo da cama, atrás da cortina e nada de você aparecer e fazer meu coração apertar. Então comecei a chorar desesperadamente porque você tinha saído da minha cabeça. Eu sempre chorei porque queria te esquecer, mas hoje eu chorei porque eu te esqueci. O amor finalmente tinha morrido em mim.
 Ouvi wonderwall, esperando alguma resposta espontânea de meu corpo, mas não aconteceu nada. Não chorei desesperadamente, como eu faço sempre, cantando de um jeito brega e adolescente ‘maybe you’re gonna be the one that saves me, and after all you are my wonderwall.’ Você não era mais minha wonderwall e nem poderia me salvar de nada. Você era só alguém que tinha ficado no passado e eu me senti completamente sozinha no mundo de novo.
Eu sempre achei que eu ia sentir um alivio enorme quando você fosse embora, mas agora eu to morrendo de medo do que a sua ausência vai fazer comigo. Você era sempre o cara que eu largaria todo mundo pra estar. Por mais que eu tenha me apaixonado por outras pessoas, você era sempre quem eu esperava no final de todos os meus casos.

 Você era sempre a parte magica da minha vida. Qualquer coisa relacionada a você era sempre meio surreal e diferente de tudo. Mas agora você foi embora e eu nunca mais vou sentir isso.  Eu queria te ver uma vez a cada dez anos e sentir mais uma vez que o mundo é mágico e que de fato o amor vale a pena. Hoje eu não senti nada disso e entrei em desespero. Nenhuma musica lembrou você, por mais que eu estivesse forçando a barra pra sentir aquela saudade inversa. Eu lembro que eu sempre repetia que queria te apagar da minha memória, como naquele filme ‘ Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças’. Hoje te apagaram da minha memória e eu  sinto saudade de sentir saudades de você.  Por mais que você tenha ido embora você vai ser sempre meu brilho eterno, como daquelas estrelas que morrem, mas a luz continua viajando no espaço. Você vai ser sempre a faísca do amor que resta em mim.

 Eu to torcendo pra te encontrar por acaso. Torcendo pra eu te olhar e sentir de novo todas aquelas coisas malucas que eu sinto quando você aparece. Torcendo pra eu poder contar mais uma vez tudo que eu sinto, mas que eu nunca soube explicar muito bem. Porque algumas coisas não precisam de explicação. Elas são o que são e pronto. Não precisa dar nome, nem querer desqualificar um sentimento só por ele não ser nobre o suficiente ou só porque ele não teve tempo de amadurecer e ser chamado de amor. Só porque tá na moda não ser muito romântico e aí vivem colocando coisas nas nossas cabeças falando que não podemos gostar de ninguém de um jeito louco e sem explicação porque isso faz a gente sofrer mais. E todo mundo sabe que no fundo, não existe conselho, porque ninguém entende nada de amor. Querem colocar regras naquilo que nunca precisou de regras, que sempre foi livre pra penetrar no coração e mudar a vida de quem quer que seja. Queria que todo esse sentimento voltasse a transbordar em mim ao ponto de eu querer rasgar tudo.

 Hoje eu entrei em desespero porque descobri que, sem você, eu não estou preparada pra amar. Descobri que você era a minha certeza de a gente pode amar e desamar e amar mais de um de uma vez e desconstruir e construir do nada. Mas agora eu não tenho mais certezas e to morrendo de medo de não ter mais ninguém pra inventar.O que que vai ser de mim agora que eu estou completamente livre pra me apaixonar eternamente de novo?

Marcela Picanço