[Papo Literário] Elizabeth Blackwell fala sobre "Enquanto Bela Dormia" e mais


 Uma das minhas metas para este ano era voltar com a coluna que eu mais adoro no ML: o Papo Literário. Ter a oportunidade de entrevistar autores que admiro me deixa muito feliz e, claro, poder compartilhar isso com vocês é ainda mais incrível.

 Para a primeira entrevista do ano, convidei uma autora que me ganhou já com a sinopse de seu livro. Elizabeth Blakwell é autora de Enquanto Bela Dormia, publicado pela Editora Arqueiro. Para quem não conhece, o livro traz a história de Elise, uma jovem que tentará a vida no castelo de St. Elsip e crescerá a cada dia até chegar a ser dama de companhia e confidente da rainha. Ela não sabe, mas o futuro do reino está em suas mãos e, principalmente, a vida da princesa. Esta é uma releitura de A Bela Adormecida e uma das releituras mais originais que já li.Você pode conferir a resenha aqui.

 Devo dizer que Elizabeth Blackwell é uma das autoras mais simpáticas que entrevistei. Em seu primeiro e-mail ela já me contou animada sobre sua relação com o Brasil e me deixou muito a vontade para fazer minhas perguntas. Espero que gostem da entrevista tanto quanto eu.

:: Entrevista feita por: Mariana Mortani
:: Traduzido por: Mariana Mortani

Magia Literária: Elizabeth, nós sabemos que a ideia para Enquanto Bela Dormia vem de assistir A Bela Adormecida muitas vezes com sua filha. Você se lembra se a ideia veio quando estava assistindo uma cena específica?
Elizabeth Blackwell: A cena que mais me inspirou foi bem no começo do filme, durante a celebração do nascimento da princesa. O momento em que Malévola amaldiçoa o bebê é incrivelmente dramático, mas eu também amei o estilo do castelo - era um lugar que eu teria amado visitar. Foi assistindo aquela cena que comecei a pensar, "E se isso fosse um castelo real? E se essa é uma história real?"
Elenco de Downton Abbey, série britânica de TV que traz a história de uma família do século XX que luta para manter seu legado na mansão que dá título a série após a morte de um parente que estava à bordo do Titanic. 
ML: Uma vez você descreveu Enquanto Bela Dormia como Dowton Abbey encontrando Game of Thrones. Eu achei isso incrível! Quando terminou o livro, era dessa forma que você gostaria que os leitores se sentissem sobre?
EB: Eu queria que os leitores tivessem uma conexão com os personagens, mas também se sentissem como se tivessem visitado um lugar onde "finais felizes" são difíceis de encontrar. Meu livro não é tão deprimente quanto Game Of Thrones, mas eu queria explorar as mesmas questões de política e como as pessoas lutam para manter o poder. E como Downton Abbey, eu queria mostrar tanto os ricos, as pessoas poderosas, e as pessoas "lá de baixo" que fazem todo o trabalho. Eles são pessoas de quem não sabemos muito sobre na maioria das histórias sobre princesas.

Capa de Enquanto Bela Dormia
no Brasil.
ML: Fiquei muito impressionada com a forma que você conduziu a história. Amo releituras e eu realmente quis ler seu livro desde a primeira vez que vi a capa e o título, mas quando li a sinopse me senti muito curiosa sobre o fato de termos uma serva como narradora de uma história já conhecida. Isso foi um desafio?
EB: Eu amo o desafio de pegar uma história que a maioria das pessoas conhece e adicionar minha própria visão. Eu queria incluir todas as partes bem conhecidas do conto de fadas (a maldição da fada má, a princesa espetando o dedo na roca, etc.) mas escrever aquelas cenas de uma forma que fosse surpreendente. Usar uma serva como narradora me deu um novo olhar para a história, porque ela vê o mundo diferente do modo que uma princesa faz.

ML: Nós não sabemos exatamente quando a história é ambientada (eu senti como se tivesse lendo uma ficção do Século XVI), mas sabemos que você criou uma terra de contos de fada. Para descrever todas as coisas do livro, você realmente escolheu um tempo ou pegou coisas de um tempo e de outro para criar o seu próprio?
EB: Desde o princípio, eu não quis dar a história um lugar ou ano exato, porque queria que os leitores fossem capazes de imaginar esse mundo por eles mesmos. Entretanto, todos os detalhes da história se encaixam com a Europa dos anos 1400 até 1500. Quando estava decidindo como as pessoas se vestiriam, o que iriam comer, e que com qual tipo de carruagens eles iriam passear, esse foi o período da história que usei em minhas referências. Então estou muito feliz que é este o tempo em que você pensou quando estava lendo!

ML: Você tem outras dois livros publicados: The House of Secrets (A Casa dos Segredos, em tradução livre) e The Letter (A Carta, em tradução livre). Pode nos falar um pouco deles?
EB: Eles são ambos romances, publicados pela Harlequim. São histórias de amor, ambos sobre mulheres que descobrem segredos do passado que afetam suas vidas. Eles também são mais curtos que Enquanto Bela Dormia! Acho que esses livros são meus "romances práticos" - eles me treinaram para como escrever ficção. Comecei minha carreira como jornalista, o que traz um diferente tipo de escrita.

ML: O que é pior: começar ou terminar um livro?
EB: Que pergunta interessante! Eu nunca pensei sobre isso antes. Começar um livro é bom, porque você está animado sobre a ideia. Terminar um livro é um grande alívio, e você se sente muito orgulhoso de ter feito isso. Tenho que dizer que a pior parte é o meio. Existem muitos momentos em que você duvida de si mesmo, ou você não está seguro sobre como continuar, ou você apenas fica cansado, porque escrever livros pode levar anos. Sim, o meio é definitivamente o pior.

ML: Você pode nos contar  algo sobre seu próximo livro e projetos futuros?
EB: Eu terminei meu próximo livro, que se passa na década de 1920 e é a história de uma jovem mulher com um misterioso passado que casa e entra para uma família rica. E claro que tudo não ocorre bem. Eu não sei ainda quando será publicado, mas eu definitivamente falarei com meu editor para ter certeza de que haverá uma edição no Brasil!

ML: Na sua bio do Twitter você se descreve como uma "leitora obsessiva". Quais são seus cinco livros favoritos da vida e qual deles você escolheria para ler pela primeira vez de novo?
E NAO SOBROU NENHUM (O CASO DOS DEZ NEGRINHOS)
Primeiro livro da lista de
Elizaberh.

EB: Sim, sou uma leitora obsessiva, o que torna essa uma pergunta muito difícil! Eu não posso dizer que tenho apenas cinco favoritos, mas aqui estão alguns livros que li muitas e muitas vezes.
1) E Não Sobrou Nenhum (O Caso dos Dez Negrinhos), de Agatha Christie: Um dos melhores mistérios de todos os tempos de uma entre os melhores autores de mistérios. Eu desejaria ler este pela primeira vez novamente, então seria surpreendida pelo final.
2) A História Secreta, de Donna Tartt: A autora te diz quem morre e quem matou no primeiro capítulo. Então a história retorna para te contar POR QUE isso aconteceu. Esse livro tem uma atmosfera arrepiante maravilhosa e personagens originais estranhos.
3) A Guerra dos Tronos, de George RR Martin: Esse foi o livro que me mostrou que fantasia poderia ser escrita como história (no sentindo de termos algo histórico em uma ficção).
4) Os Pilares da Terra, de Ken Follet: Um livro sobre a construção de uma catedral medieval soa como se fosse entediante, mas não é!
5) Orgulho e Preconceito, de Jane Austen: Como milhares de pessoas no mundo, eu amo Elizabeth Bennett e Sr. Darcy.

ML: Qual o privilégio de ser uma escritora?
EB: Quando você tem uma boa ideia e se sente inspirado, ser uma escritora é um trabalho incrível. Você passa a viver dentro do mundo que criou e segue suas paixões, e se quiser, você pode vestir pijamas o dia inteiro! Escutar leitores que gostem de seus livros é fantástico. Quando você começa a escrever um livro, você nunca sabe como as outras pessoas vão reagir, então é a maior alegria descobrir que sua história fez uma conexão com leitores. Entretanto, eu também devo dizer que ser um escritor pode te deixar louco! Você tem que ser capaz de seguir em frente mesmo quando você não sabe como a próxima cena deve ser. Ou quando você lê uma resenha online de alguém que odiou seu livro. :)

ML: Muito obrigada por esta oportunidade, Elizabeth. Espero que as pessoas que leiam seu livro o amem tanto quanto eu. Por favor, deixe uma mensagem para seus leitores brasileiros e para aqueles que querem ser autores um dia.
EB:  Eu espero que tenha a oportunidade de ir ao Brasil de novo um dia! Eu tenho muitas lembranças felizes de minhas visitas ao Rio e Brasília (e me lembro de comer muito pão de queijo). Para qualquer um lendo isso que quer se tornar um escritor, meu melhor conselho é tentar tudo. Leia todos os diferentes tipos de livro, e tente escrever todos os diferentes tipos de histórias. Eu comecei muitos livros que nunca terminei, e por um tempo pensei que eu tinha falhado. Agora, vejo que isso foi prática e me tornou uma escritora melhor. No fim, você encontrará o estilo que se encaixa melhor em você.

RAPIDINHAS:
Se eu fosse um autor, seria: Eu gostaria de poder ter a carreira de Margaret Atwood. Ela tem escrito livros por 40 anos e ainda pensa em ideias criativas!
Se eu fosse um livro, seria: Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Às vezes sou "razão" (prática) e outras vezes sou "sensibilidade" (emoções).
Se eu fosse um personagem, seria: Elizabeth Bennet, de Orgulho e Preconceito.
Se eu fosse um lugar, seria: Um campo inglês, com um castelo, é claro.
Se eu fosse um sentimento, seria: Curiosidade.
Se eu fosse uma música, seria: Let it be, dos Beatles.
Se eu fosse uma palavra, seria: Compaixão.
Se eu fosse uma frase, seria: Sonhe alto.
:: Entrevista feita por: Mariana Mortani
:: Traduzido por: Mariana Mortani

 E então, pessoal, gostaram?

Essa se tornou uma das minhas entrevistas favoritas. Não deixem de me contar o que acharam!