[Resenha] As Gêmeas do Gelo | S.K. Tremayne


Título: As Gêmeas do Gelo
Título Original: The Ice Twins
Autora: S.K. Tremayne
ISBN: 9788528620528
Grupo Editorial: Record
Editora: Bertrand Brasil
Número de Páginas: 362
Gênero: Thriller, Thriller Psicológico
Sinopse: Um ano depois de Lydia, uma de suas filhas gêmeas idênticas, morrer em um acidente, Angus e Sarah Moorcroft se mudam para a pequena ilha escocesa que Angus herdou da avó, na esperança de conseguirem juntar os pedaços de suas vidas destroçadas. Mas quando sua filha sobrevivente, Kirstie, afirma que eles estão confundindo a sua identidade — que ela é, na verdade, Lydia — o mundo deles desaba mais uma vez. Quando uma violenta tempestade deixa Sarah e Kirstie (ou será Lydia?) confinadas naquela ilha, a mãe é torturada pelo passado — o que realmente aconteceu naquele dia fatídico, em que uma de suas filhas morreu?'
"Era como se quisessem coexistir, uma dentro da outra."
 Recentemente falei sobre meus cinco livros de thrillers psicológicos favoritos e um que estava lendo lá no canal do blog. Quando gravei o vídeo,  As Gêmeas do Gelo ainda não havia chegado para mim, porém, mesmo depois de ter chegado, achava difícil que ele pudesse ser comparado a outros de minha lista - não nada em relação ao livro me fazia pensar assim, era só o simples sentimento de que aqueles cinco, talvez, não pudessem abrir espaço para outro. Nos sites e redes sociais indicam este livro para os que gostaram de A Garota no Trem, de Paula Hawkins, mas eu, depois da leitura, indicaria ainda mais para quem leu Desaparecidas. E se você leu o livro de Lauren Oliver, sabe exatamente o porquê disso.
"Desde o início, as gêmeas morriam de medo da escuridão total. Isso as aterrorizava, causando gritos bizarros. Depois de um ano, mais ou menos, percebemos o porquê: na escuridão, elas não podiam se ver."
Sarah e Angus Moorcroft perderam uma de suas filhas gêmeas há pouco mais e um ano. Lydia, a gêmea mais simples, envergonhada e calma, se foi deixando marcas em todos, mas principalmente em Kirstie, a gêmea chamativa, agitada e brincalhona. Quando Sarah acredita que, finalmente, a família está prestes a dar um passo para fora de seu luto ao se mudarem para uma ilha escocesa, a filha sobrevivente afirma que todos estão confundindo sua identidade. Agora, como saber quem é a filha que se foi e a filha que ficou?
"Este lugar era amaldiçoado por sua própria beleza."
 Eu realmente esperava que o livro fosse um bom thriller, que iria me prender e me fazer pensar, mas não pensei que ele poderia mexer tanto comigo. Sempre digo que gosto de preparar o ambiente para ler o livro (livros natalinos na época de natal, livros sobre férias durante as férias...) e, quando se tratam de livros de investigação ou algo perto do suspense, gosto de ler há noite - acho que ajuda ainda mais nos momentos de tensão e envolvimento. Dessa vez, quanto mais eu avançava pela leitura, não queria parar, ao mesmo tempo em que pensava "eu vou sonhar com isso tudo e não vai ser legal".

 Não conhecia a escrita de S.K. Tremayne, mas com certeza gostei do que acompanhei. Para nos permitir duas visões da história e, ao mesmo tempo, não nos contar tudo por completo, o autor escreve em primeira pessoa quando estamos conhecendo a visão de Sarah, em terceira pessoa em alguns capítulos onde acompanhamos Angus e ainda prepara uma surpresinha por final que, obviamente, deixarei vocês descobrirem sozinhos. Para tornar a leitura ainda mais assustadora, o autor acrescenta algumas imagens um tanto quanto perturbadoras antes de certos capítulos. Em determinados capítulos eu queria parar para analisar as imagens, em outros queria passar rápido pelo simples motivo de que não conseguia olhá-las por muito tempo. E se você tem o livro aí ou está pensando em olhar as imagens na livraria, não adianta. Eu já havia folheado e não senti nada, pois é só quando você está lendo que tudo faz sentido. Ou não faz.
"- Mamãe? Mamãe? Mamãe? Quem sou eu?"
 Estar na cabeça de crianças em livros é sempre interessante. No sentido bom e ruim. Muitas vezes, se dar conta da confusão em seus pensamentos é perturbador, mas também é reconfortante quando nos damos conta do quão inteligentes são. Em As Gêmeas do Gelo não podemos saber exatamente o que se passa na cabeça da gêmea sobrevivente, entretanto é através dos pais que nos damos conta do que acontece na família. Somos capazes de perceber a confusão na cabeça deles e, sobretudo, como isso influência os pensamentos da filha.
"Onde está Angus? Por que está demorando tanto? Será que se afogou? Tomara que sim. Não, tomara que não. Eu não sei mais."
A confusão na cabeça de Sarah, em especial, é o que torna tudo ainda mais real e atordoante. A maneira como ela está incomodada com a situação, a falta de segurança em relação ao marido, a falta de confiança em si mesma, a preocupação com o estado da filha, a dúvida sobre seus atos... tudo pode ser sentido pelo leitor graças a narrativa do autor e a maneira como ele nos apresenta a personagem. Ela é o tipo de pessoa que prefere ficar calada e se fechar ao invés de compartilhar seus sentimentos até com o marido. Ela sempre opta pelo silêncio - e vamos percebendo que, além de isso incomodar muito ele, a incomoda também.
"Todo amor é uma forma de suicídio"
 Mas o livro não é simplesmente sobre uma mãe que tem dúvidas em relação ao casamente e aos filhos. É sobre casamentos que se desgastam porque marido e mulher não são sinceros um com o outro, é sobre pais que se tornam abnegados em relação aos filhos, sobre filhos que se sentem distantes dos pais, sobre irmãos que não sabem realmente quem é o outro. Pode parecer tudo muito raso quando falo, porém garanto que é tudo tratado de maneira profunda e que o autor consegue acrescentar muitos outros temas e elementos no enredo, eu só não quero que vocês descubram tudo nessa resenha. Mas uma coisa posso dizer: confiança é um dos assuntos principais.

 Depois de tudo o que Sarah e Angus passaram, devo dizer que fiquei perplexa com o real motivo do acidente e como as coisas aconteceram de fato. Achei que o autor foi tão brilhante ao longo do livro que reli a página que revela tudo o que aconteceu duas vezes, me recurando a acreditar que todo o enredo tenha se desenvolvido por aquilo. O final mesmo também é meio que deixado por aberto. Um amigo que leu o livro não aceitou o final, uma amiga não entendeu o mesmo que eu e o outro amigo, mas a verdade é que o autor testa os próprios leitores. Se você leu e está em dúvida do que eu estou dizendo, pense nas imagens, nas palavras da filha sobrevivente, no que Sarah e ela viam... Não posso falar mais nada.
"Tudo aqui é frio como o gelo."
 As Gêmeas do Gelo foi um livro que me surpreendeu pela maneira arrebatadora e que possui um final perturbador. Quando fechei o livro sentia como se não estivesse sozinha no local, como se alguém (se você leu o livro, entende) estivesse comigo. S.K. Tremayne apresenta uma obra que é repleta de comoção e aflição, mas que poderia ser ainda mais completa se uma explicação no final não fosse a que é. Entendo que o autor deixa algo no ar para a interpretação dos leitores, porém gostaria que todos entendessem o que eu entendi, que sentissem o que eu senti e que acreditassem no que acredito.
"A escuridão se transforma em trevas."