[Resenha] O Conto da Aia | Margaret Atwood



Título: O Conto da Aia
Título original: The Handmaid's Tale
Autora: Margaret Atwoof
ISBN-13: 9788532520661
ISBN-10: 8532520669
Editora: Rocco
Ano de lançamento: 2017 
Número de páginas:  368
Gênero: Distopia, Suspense, Drama
Encontre: Amazon | Skoob
Sinopse: Escrito em 1985, o romance distópico O conto da aia, da canadense Margaret Atwood, tornou-se um dos livros mais comentados em todo o mundo nos últimos meses, voltando a ocupar posição de destaque nas listas do mais vendidos em diversos países. Além de ter inspirado a série homônima (The Handmaid’s Tale, no original) produzida pelo canal de streaming Hulu, o a ficção futurista de Atwood, ambientada num Estado teocrático e totalitário em que as mulheres são vítimas preferenciais de opressão, tornando-se propriedade do governo, e o fundamentalismo se fortalece como força política, ganhou status de oráculo dos EUA da era Trump. Em meio a todo este burburinho, O conto da aia volta às prateleiras com nova capa, assinada pelo artista Laurindo Feliciano.
"Nós ansiávamos pelo futuro. Como foi que aprendemos aquilo, aquele talento pela insaciabilidade?"p. 11

 Depois que uma onda de infertilidade ocorreu por conta de problemas como desmatamento, poluição e doenças sexualmente transmissíveis, os Estados Unidos se torna República de Gilead e vive um regime totalitário e teocrático religioso. Nele, as raras mulheres férteis que existem são designadas a um casal para que o homem, intitulado Comandante, a engravide. As mulheres não são nada. Não possuem direitos, nem nomes. Apenas seguem uma rotina e, uma vez por mês, um ritual em seu período fértil. É uma realidade difícil, decadente e revoltante, e iremos conhecê-la através de uma aia chamada atualmente de Offred.
"Acidentes não existem. Tudo acontece intencionalmente." p. 31
 Offred precisa de algo para ocupar seu tempo, e as lembranças são o que mais a preenchem. Nossa protagonista não era ligada a política antes de todas as mudanças drásticas e, mesmo que queira agora, não pode se informar. Ao ser sequestrada para "cumprir seu dever e servir a república", ela deixou, principalmente, marido e filha para trás sem saber se algum dia voltaria a vê-los. Ela também precisou lidar com a perda de todo o resto que tinha, até de coisas simples, como seu nome.  Agora, precisa enfrentar uma vida que é tudo menos sua.
"Existe mais de um tipo de liberdade, dizia Tia Lydia. Liberdade para, a faculdade de fazer ou não fazer qualquer coisa, a liberdade de,  que significa estar livre de fazer alguma coisa. Nos tempos de anarquia, era liberdade para. Agora a vocês está sendo concedida a liberdade de. Não a subestimem." p. 36
 A narrativa em primeira pessoa é, ao mesmo tempo, a melhor e a pior coisa do livro. Isso em um bom sentido. Através dela, a personagem principal é capaz de nos passar cada sentimento, cada angústia, cada dificuldade que ela precisa suportar. Por outro lado, é difícil encarar e aguentar tudo isso com ela. Margaret Atwood nos faz imaginar cada detalhe, cada lugar, cada movimento. As 100 primeiras páginas são difíceis de sustentar, uma vez que é tudo muito novo, complicado e maçante, parecia que a história não estava seguindo. Exatamente como a vida nessa república, nada parecia fluir, se encaixar ou evoluir. Quando já estamos muito conectados com Offred, as coisas parecem mais naturais, porém não menos desagradáveis. É como se realmente vivêssemos naquele ambiente e tudo se torna mais real e revoltante a cada página.
"Mãe, penso. Onde quer que você possa estar. Pode me ouvir? Você queria uma cultura de mulheres. Bem, agora existe uma. Não é como a que você queria, mas existe. Dê graças a Deus pelo pouco que tem." p. 155
 O que mais choca durante a leitura é que, mesmo sendo escrita na década de 19080, a trama possui pontos que são muito reais para nós, em pleno 2017. O enredo fala sobre mulheres que deveriam ser valorizadas, porém que acaba sendo oprimidas e vivendo um retrocesso. E não é apenas sobre as aias que estou falando. Apesar de haver muitas diferenças entre as "classes" de mulheres existentes nesse enredo, fica claro que as esposas, as tias, as Martas e as aias são sofredoras. E, sim, as tias foram mencionadas por mim. Essas mulheres que são encarregadas de fazerem um tipo de lavagem cerebral nas aias e que, à primeira vista, não parecem ter nada de bom a acrescentar, no fundo, merecem pena. A autora nos permite compreender cada tipo de sofrimento, mesmo que em alguns momentos seja inevitável escolher um lado, e nos apresenta diversos personagens capazes de nos fazer refletir sobre e questionar muita coisa.
"Contexto é tudo." p.  174
 Apesar de tudo isso, um ponto que (talvez não devesse mas) me incomodou durante a leitura é o quão distraída nossa protagonista era. Antes, ela realmente não era ligada a política e, tudo bem você não ser, mas a impressão que fica é a que ela realmente não se informava sobre nada. As mudanças foram chegando, ela precisou enfrentá-las, e por mais que elas parecessem repentinas, algumas de suas memórias nos fazem perceber que as coisas eram noticiadas e, principalmente, abordadas em conversas entre amigos, porém ela era a alienada. Seus pensamentos, reflexões e memórias acabam deixando pontas soltas durante o livro, o que pode nos instigar, claro, porém também nos deixa frustrados. O final em aberto porém com um epílogo deixa a impressão de que a autora queria se justificar ou simplesmente nos fazer entender suas escolhas, entretanto é necessário admitir que acaba deixando a impressão de que os buracos na história eram ainda maiores.
"Nolite te bastardes carborundorum."
 O Conto da Aia pode ter defeitos, porém não deixa de ser uma história forte e necessária, capaz de deixar o leitor atordoado.. Apresenta uma leitura depressiva e impactante, além de uma protagonista que, apesar de tudo, te envolve em sua história e te faz ansiar tanto quanto ela por sua liberdade. Margaret Atwood aborda questões como fundamentalismo, extremismo, machismo, radicalismo e garante um enredo original e reflexivo que traz muitas mensagens sobre o passado, o presente e o futuro. Não apenas das mulheres.

Assisti a série baseada no livro e ela me surpreendeu muito positivamente. Confiram: