[RESENHA] CRIATURAS E CRIADORES | RAPHAEL DRACCON, CAROLINA MUNHÓZ, FRINI GEORGAKOPOULOS E RAPHAEL MONTES

Clássicos do medo reinventados por quatro escritores brasileiros, para noites de sustos, terror e gritos. Quatro dos mais populares autores contemporâneas brasileiros, Raphael Draccon, Carolina Munhoz, Frini Georgakopoulos e Raphael Montes se uniram para reinventar os contos de terror clássicos. Frankenstein vive, e está numa favela do Rio. Rumores indicam que Drácula pode ser o dono de uma nova e badalada boate. Numa faculdade de artes, há uma lenda que diz que um fantasma ajuda belas jovens a cantar num teatro abandonado. Um mistério ronda a vida de um dentista e pai de família que está prestes a descobrir seu lado mais monstruoso. Quatro clássicos do medo reinventados por quatro escritores brasileiros para noites de sustos, terror e gritos.
 Contos | Fantasia | Terror | 248 páginas | Editora Record | Amazon | Skoob

"Se não havia como avançar até o inimigo, era preciso fazer o inimigo avançar até eles." p. 19
 Nesse Halloween, a Editora Record reuniu quatro autores brasileiros para lançar um livro de contos de terror. Nada melhor do que histórias com um tom sombrio para aproveitar essa data, certo? Em Criaturas e Criadores Carolina Munhóz, Frini Georgakopoulos, Raphael Draccon e Raphael Montes apresentam releituras de seus clássicos favoritos e nos permitem uma leitura nostálgica, envolvente e sombria.
"Eu amo a minha criação, mas odeio a minha criatura." p. 47
  O livro se inicia com A Criatura, de Raphael Draccon. O autor consegue, mais uma vez, nos transportar para o cenário de sua história e nos leva até uma favela carioca onde Frankenstein é caçado pelo BOPE. Quer algo mais atual que isso? Temos Elizabeth, jornalista e youtuber que irá alcançar revelações poderosas e nos fará refletir sobre a busca pela imortalidade enquanto realiza uma entrevista de extrema importância com Victor, um cirurgião caçado pela polícia. Como vocês já devem imaginar, Victor não é um cirurgião qualquer. Ele é o criador de nosso Frankestein que era um psicopata aliado do tráfico de drogas.

 Draccon consegue nos fazer imaginar cada detalhe, a adrenalina está presente em cada página e os diálogos intensos e reveladores nos deixam querendo cada vez mais detalhes dessa aventura. Adorei termos dois personagens que se desafiam a todo instante e acabam se completando, uma vez que, juntos, nos permitem reflexões e mensagens marcantes. A vida de Frankenstein antes da transformação, o que levou Victor até ele, o desenvolvimento do monstro... tudo se torna cada vez mais interessante e, por mais que pareça uma história super louca a primeira vista, foi muito bem preparada e desenvolvida. Draccon sempre surpreende, afinal.
"O toque dos lábios dele era gélido. Como a morte.
Como a sensação de suas noites de sono." p. 65
  Em Conde de Ville, Carolina Munhóz nos apresenta Elisabeth, uma jovem que trabalha em uma revista de contos sombrios e está lutanto, há muitas noites, contra o bloqueio criativo. Em conflito com a própria escrita e começando a duvidar de seu talento, Elis acaba se colocando frente a frente com sua imaginação ao conhecer Vlad, o dono de uma badalada casa noturna que se mostra estranhamente familiar e misterioso.

 A maneira como Carolina apresenta uma personagem delicada porém resistente é ótima. Nós acompanhamos seus erros torcendo, de certo modo, para que ela os cometa, uma vez que sabemos que cada escolha nos levará a mais informações sobre V. As verdades que o cercam, a memória de Elis, a maneira como eles se envolvem e os detalhes preciosos que Carol inclui em seu conto são maravilhosos. Cada personagem é essencial para o desenrolar da trama e nos envolvemos tanto com a mesma que a sensação que fica é a de que estivemos pessoalmente participando  de cada cena.
"Como era possível meu maior sonho dar espaço ao meu pior pesadelo?" p 106
 Por Trás da Máscara, de Frini Georgakopoulos, apresenta um envolvimento singular. Nesse conto, Christine Daaé é uma estudante que está passando por momentos difíceis. Após a morte de seu pai, ela se vê realizando um sonho, porém não consegue aproveitá-los por conta da dor da perda. Quando percebe que está se prejudicando na faculdade, a jovem sabe que precisa correr atrás do prejuízo, entretanto não imaginava que contaria com a ajuda de um misterioso fantasma que, segundo lendas, era um professor em busca da voz perfeita.

 Nesse conto temos a garantia de uma paixão intensa, amizades verdadeiras e a busca por conquistas e, desde os primeiros momentos de leitura, o carinho da autora pela história original é perceptível. Frini se empenha ao nos apresentar cada personagem e detalhe da trama com delicadeza, nos deixa com a sensação de estarmos no meio de uma conversa profunda com sua protagonista. As referências ao musical tornam tudo ainda mais especial e, ao terminar a leitura, eu só queria correr para assistir O Fantasma da Ópera e ter a possibilidade de passar mais tempo com os personagens para conhecer suas verdadeiras histórias. 
"A mente humana tem a péssima mania de viajar para lugares obscuros, precipícios perigosos onde conhecemos o pior de nós mesmos." p. 223
 Com narrativa fluida, rápida e descritiva na medida certa, O Sorriso do Homem Mau fecha o livro nos apresentando um homem que aparenta ser o que não é. Pablo, um dentista que cuida de crianças, parece ter uma família exemplar e uma carreira bem sucedida, porém vive atormentado por lembranças de um passado que tenta ignorar. Principalmente sabendo que, dentro dele, há um monstro.

 O conto te Montes é uma versão estendida de um de seus contos de mais sucesso e acredito que seus leitores apreciarão ainda mais a história. De qualquer forma, iniciei a leitura com um pé atrás justamente por isso. Por mais que não seja uma continuação, o fato de fazer parte de uma história já publicada e que eu não conhecia me deixou com a sensação de chegar atrasada em um show e perder a abertura. De qualquer forma, a história é objetiva, ficamos ansiosos para obter algumas respostas e o mistério se torna cada vez mais proveitoso. É um conto que fala aborda esperança e desespero, além das verdades e mentiras que cada um carrega dentro de si.
"É tarde demais." p. 228
 Criatures e Criadores cumpriu com o prometido e me fez perder uma noite de sono. Iniciei a leitura à noite com o objetivo de ler apenas um conto, entretanto não consegui interrompê-la e adentrei a madrugada. Carolina Munhóz, Frini Georgakopoulos, Raphael Draccon e Raphael Montes conseguem encontrar um equilíbrio entre apresentar histórias modernas e nos remeter aos clássicos que escolheram. A leitura tem um quê de nostalgia por nos remeter às histórias originais, entretanto nos surpreende com a originalidade de cada um dos autores e o cuidado que tiveram ao se inspirar em seus clássicos favoritos. Recomendo demais o livro e, quando tiverem a oportunidade de ler, não hesitem: leiam durante a noite.