[RESENHA] DEPOIS DAQUELA MONTANHA | CHARLES MARTIN


O Dr. Ben Payne acordou na neve. Flocos sobre os cílios. Vento cortante na pele. Dor aguda nas costelas toda vez que respirava fundo. Teve flashes do que havia acontecido. Luzes piscavam no painel do avião. Ele estava conversando com o piloto. O piloto. Ataque cardíaco, sem dúvida. Mas havia uma mulher também – Ashley, ele se lembra. Encontrou-a. Ombro deslocado. Perna quebrada. Agora eles estão sozinhos, isolados a quase 3.500 metros de altitude, numa extensa área de floresta coberta por quilômetros de neve. Como sair dali e, ainda mais complicado, como tirar Ashley daquele lugar sem agravar seu estado? À medida que os dias passam, porém, vai ficando claro que, se Ben cuida das feridas físicas de Ashley, é ela quem revigora o coração dele. Cada vez mais um se torna o grande apoio e a maior motivação do outro. E, se há dúvidas de que possam sobreviver, uma certeza eles têm: nada jamais será igual em suas vidas. Publicado em mais de dez países, Depois Daquela Montanha chegará às telas de cinema em 2017, com Kate Winslet (de Titanic) e Idris Elba (de Mandela) escalados para os papéis principais de uma história que vai reafirmar sua crença na vida e no poder do amor.
 Romance | Drama | 304 páginas | Editora Arqueiro | 2017 | Skoob | Amazon
"Não há segredos em um avião pequeno como esse." p. 29
 A história de dois desconhecidos que acabam unidos por uma tragédia já parece bem instigante, porém Depois daquela montanha chamou minha atenção, principalmente, por conta da adaptação protagonizada por Kate Winslet e Idris Alba. Eles interpretam, respectivamente, Ashley, uma colunista de revistas revistas, e Ben, um cirurgião ortopedista. Devido a uma nevasca, seus respectivos voos são cancelados, entretanto Ben acaba encontrando uma saída ao buscar por um avião fretado e convida Ashley para partir com ele. O que eles não esperavam era que Grover, o piloto, teria um ataque cardíaco, mas conseguiria salvar a vida dos passageiros e de seu cachorro em um pouso forçado.

"— Todos nós passamos os dias olhando por lentes borradas, embaçadas, arranhadas, às vezes quebradas. Mas isto aqui - deu um tapinha no manche —, isto tira a gente de trás das lentes e, por uns breves segundos, dá cem por cento de visão." p. 38
 Com capítulos curtos, Depois daquela montanha conta com a narrativa de Ben sobre os acontecimentos que seguem a queda do avião e a narrativa do mesmo personagem em um gravador. Essa troca, além de seus pensamentos e dúvidas, acabam tornando a leitura um pouco mais lenta e até maçante em determinados momentos. Já é de se esperar que acompanhar a tentativa de sobrevivência e o sofrimento dos personagens seja algo que precise de um pouco mais de paciência, porém acredito que, caso houve a narrativa de Ashley em alguns momentos, talvez tivéssemos a possibilidade de algo um pouco mais dinâmico e até mais emocionante. 
"— A dor é a fraqueza saindo do seu corpo." p. 52
 Algo que eu também esperava da leitura era a intensidade. De um lado temos Ben, que se questiona muito, visita seu passado inúmeras vezes e sabe praticamente tudo a respeito de sobrevivência. Do outro temos Ashley, que consegue encontrar forças para tentar seguir adiante, apoiar Ben e não deixar o sarcasmo de lado. Os dois são personagens bem diferentes e Napoleão, o cachorro do piloto, acrescenta um toque especial para o desenrolar da trama. É ótimo acompanhar o desenvolvimento da relação deles, a forma como vão se mostrando aos poucos porém rápido o bastante para que toda a situação os una cada vez mais. Logo a leitura se torna mais fluída e proveitosa, uma vez que o leitor acaba se acostumando aos poucos com as circunstâncias e, também, com o fato de termos apenas um narrador.
"É difícil saber que caminho tomar." p. 99
  A escolha de Ben para narrador é compreensível. Ele possui toda uma bagagem e características especiais - como o gravador, as visitas ao passado e as declarações para a esposa - que tornam tudo mais difícil. Ashley parece forte demais para narrar um livro como esse, só que me perguntei, em diversos momentos, se sua personalidade não seria meio que um escudo para ultrapassar tantos obstáculos. Ao longo da leitura podemos perceber, sim, certas inseguranças, mas nada que realmente se torne um destaque. E, apesar das frases marcantes, das declarações profundas de Ben e das tentativas de desvendar Ashley, não consegui, de fato, torcer para os personagens.  Tudo parece caminhar para ser "apenas" uma história sobre duas pessoas ligadas pelo destino que irão sobreviver a uma tragédia e seguir com suas vidas.
"— Não sei se vamos conseguir ou não, mas ou nós vamos, ou nós não vamos. Não há outra opção." p. 187
Depois daquela montanha pode não não ter me surpreendido (nem com o final meio inesperado, devo dizer), porém foi uma leitura cheia de frases marcantes e reflexões interessantes. Charles Martin trabalha os clichês da melhor forma possível, apresenta dois personagens bem diferentes porém que acabam se completando e, apesar da leitura lenta em diversos momentos, consegue nos fazer entender que é uma história importante e não vale a pena abandoná-la. Tenho esperança de que muitos momentos maçantes serão trabalhados de uma forma melhor na adaptação.