[RESENHA] A MULHER NA CABINE 10 | RUTH WARE


Aclamado pela crítica e há mais de 30 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, A mulher na cabine 10 estabelece de vez Ruth Ware como um dos grandes nomes do suspense contemporâneo, na melhor tradição de Agatha Christie. No livro, uma jornalista de turismo tenta se recuperar de um trauma quando é convidada para cobrir a viagem inaugural de um luxuoso navio. Mas, o que parecia a oportunidade perfeita para se esquecer dos recentes acontecimentos acaba se tornando um pesadelo quando, numa noite durante o cruzeiro, ela vê um corpo sendo jogado ao mar da cabine vizinha à sua. E o pior: os registros do navio mostram que ninguém se hospedara ao seu lado e que a lista de passageiros está completa. Abalada emocionalmente e desacreditada por todos, Lo Blacklock precisa encarar a possibilidade de que talvez tenha cometido um terrível engano. Ou encontrar qualquer prova de que foi testemunha de um crime e de que há um assassino entre as cabines e salões luxuosos e os passageiros indiferentes do Aurora Boreal.
Suspense | Mistério | 320 páginas | Editora Rocco | 2017 | Amazon | Skoob
"Se pensasse, ia chorar, e, se chorasse agora, talvez nunca mais parasse." p.16
 Expectativa é sempre algo difícil de se lidar. Ruth Ware é uma autora que conheci no início desse ano com o livro Em um bosque muito escuro, da Coleção Luz Negra da Editora Rocco. Aquela havia sido uma maravilhosa história de se acompanhar, um suspense realmente instigante, de modo que A mulher na cabine 10 se tornasse uma leitura desejada assim que soube do lançamento.  E, apesar de serem livros com propostas diferentes, foi impossível não comparar os dois livros de Ruth Ware. Ao chegar no final da leitura que é o foco de hoje, percebi como a mesma havia sido apenas tolerante e como, infelizmente, a sensação de chegar ao fim foi muito melhor do que qualquer outra durante o desenrolar da trama.
"Não entre em pânico era só o que eu pensava." p. 52
 O enredo de A mulher na cabine 10 acompanha a jornalista Laura Blacklock que, dias antes de uma viagem que pode lhe conceder uma promoção, precisa enfrentar problemas pessoais que deixam marcas profundas em seu psicológico. Determinada a seguir em frente e embarcar na viagem de estreia de um luxuoso cruzeiro, Lo só não esperava que, apesar de todas as coisas grandiosas - literalmente - que ela encontrará no Aurora Boreal, um crime poderia acontecer na cabine ao lado da sua.  Entre antidepressivos e pesadelos, a jornalista possui muitas questões mal resolvidas de seu passado e se torna bem difícil de aturar ao longo da leitura. De qualquer forma,  a narrativa em primeira pessoa nos aproxima de Lo e nos permite compreender melhor seus pensamentos e seus atos. Mas nada que realmente te faça se envolver com a protagonista. Você apenas a acompanha sem sentir muita coisa.
"E pensei: há um assassino nesse navio. E a única pessoa que sabe sou eu." p. 100
 Durante a leitura de A mulher na cabine 10 é possível, sim, se questionar a respeito dos possíveis culpados, perder a paciência com as contradições de alguns personagens, temer pela inconstância da história e estar praticamente de mãos dadas com Lo em busca de respostas, mas, infelizmente, a leitura é maçante. Um ponto alto da trama é a tentativa incansável de Lo de encontrar um culpado e de provar que não está equivocada, só que as cenas mais arrastadas, como os jantares e conversas com outros passageiros do navio, que são momentos e diálogos que provavelmente funcionariam muito bem em um filme e aqui, no livro, se tornam cenas arrastadas.
"Escritas no espelho embaçado, com letras que deviam ter uns quinze centímetros de altura, estavam as palavras 'PARE DE FUÇAR'." p. 153
 Apesar de algumas partes com informações de fora do cruzeiro que parecem uma tentativa (falha) de nos fazer criar possibilidades em nossa mente, há algo faltando para que o suspense realmente fique característico e te faça querer virar páginas atrás de página.  A escrita de Ruth Ware está mais leve dessa vez e senti um pouco de falta da tensão e das jogadas estratégicas da autora nesse livro. Faltou alguém que eu realmente desconfiasse, faltou um diálogo-chave para desvendar o mistério, faltou um anti-herói com mais personalidade e uma justificativa mais plausível para o crime principal. 
"Uma parte de mim, uma parte grande, queria se encolher embaixo do edredom. A ideia de bater papo, ou de comer a comida servida por alguém que podia ter matado uma mulher ontem à noite... essa ideia era aterradora e totalmente surreal.
Mas outra parte, mais teimosa, se recusava a desistir." p. 190
A mulher na cabine 10 pode aparentar ter muitos defeitos, porém não consigo parar de pensar que o maior empecilho talvez tenha sido eu. O livro anterior de Ruth Ware me fez ansiar por esse livro, mas é sempre ruim criar tantas expectativas. Não consegui me conectar com a personagem nem sentir o suspense da maneira arrebatadora que deveria, mas talvez você aí sinta. Então, se tiver a oportunidade, conheça a autora através de A mulher na cabine 10 e depois se prepare para Em um bosque muito escuro.

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