[Resenha] A Fogueira | Krysten Ritter

Com lançamento simultâneo no Brasil e nos EUA, A fogueira é o livro de estreia da atriz Krysten Ritter, protagonista do premiado seriado da Netflix Jessica Jones e conhecida também por seus papéis em Os defensores e Breaking Bad, entre outros filmes e séries. Na trama, Abby Williams é uma advogada de 28 anos especializada em questões ambientais. Hoje uma mulher independente vivendo em Chicago, Abby teve uma adolescência problemática numa cidadezinha no estado de Indiana que até hoje ela luta para esquecer. Mas um caso de contaminação envolvendo uma grande empresa obriga Abby a voltar à pequena Barrens e confrontar seu próprio passado. Quanto mais sua equipe avança nas investigações sobre a Optimal Plastics, mais Abby se aproxima também da verdade sobre o misterioso desaparecimento de sua antiga melhor amiga anos atrás e de outros acontecimentos até então sem resposta.

Thriller | Suspense | Mistério | 288 páginas | 2017 | Fábrica 231 | Amazon | Skoob
"Barrens tem raízes em mim. Se eu quiser que desapareça para sempre, precisarei arrancá-las." p. 11
No momento em que vi A Fogueira entre os lançamentos do selo Fábrica 231 não pensei duas vezes: esse livro precisava estar entre minhas leituras. Além de ser um thriller que parecia colocar o passado e o presente da protagonista frente a frente, este é o livro de estreia de Krysten Ritter, atriz que interpreta Jessica Jones, personagem da Marvel, no seriado homônimo da Netflix. No livro ela nos apresenta Abbi, uma mulher de vinte e poucos anos que parece ter alcançado apenas boas coisas na vida: emprego, cidade, casa, rotina, ficantes, estabilidade e etc. O que não se sabe é que, por traz de todas essas conquistas e, principalmente, da determinação para chegar onde chegou, Abbi esconde um passado cheio de feridas ainda abertas. Quando precisa voltar para sua cidade Natal a fim de participar de uma investigação, Abbi se depara não só com lembranças fortes, como com fantasmas difíceis de lidar.
"É como se regras do passado tivessem sido reescritas e eu ainda estivesse aprendendo o jogo." p. 15
 Abbi não é uma protagonista fácil de se gostar. Na verdade, não é necessário tanto esforço para se identificar com ela - seja por conta da relação com o pai, do bullying sofrido na adolescência, da vontade de fugir ou do desejo de encontrar respostas - entretanto, suas barreiras e inseguranças acabam sendo um obstáculo no meio de tantas perguntas a respeito da investigação que está ocorrendo. De qualquer forma, a escolha da narrativa em primeira pessoa foi ótima para que a entendêssemos melhor, a ponto de conseguir driblar seus conflitos internos, seguir em frente em busca de respostas e, mais do que isso, chegar a um ponto em que ela acabasse de fato se destacando mais do que a investigação.
"Para o restante da equipe, este é apenas outro caso. Para mim, é uma oportunidade de finalmente enfrentar os demônios." p. 32
 Gosto de tramas que abordam o passado e o presente e aprecio ainda mais quando o autor consegue equilibrar bem os sentimentos que tal tema pode vir a envolver. Krysten Ritter faz isso bem, porém, em diversos momentos, questões pessoais da protagonista acabam se tornando mais interessantes. Não que houvessem mais cenas ou, realmente, um foco maior na vida pessoal de Abbi, mas, como leitora, acabei percebendo que consegui me conectar com a personagem a ponto de querer saber mais sobre seus interesses e assuntos pessoais do que as questões sobre possíveis crimes e corporações. Talvez, entretanto, esse seja o motivo da autora, nos fazer analisar todas as possibilidades a respeito da investigação, porém nos deixar mais apegados à protagonista, assim como a mesma tinha motivos mais fortes do que toda sua equipe para querer alcançar a verdade.
"– O que está morto e enterrado é melhor que fique assim. – Ele recusa os lábios sobre os dentes compridos em um sorriso. - Não fica mais bonito quando sai da cova." p. 175
 E  A Fogueira pode ser um livro maravilhoso por conta da leitura interessante e instigante que permite várias interpretações, só que, ao parar para analisar melhor, percebo que vários pontos da trama podem ser encontrados em outros livros. Parece que a autora, depois de ler tantos livros do gênero, resolveu criar sua própria história utilizando uma fórmula que dá certo. Não há nada de errado em querer acertar logo de primeira e, claro, se inspirar em livros marcantes. A única coisa que deixa a desejar nesse caso é que, para os leitores que leem muitos thrillers e suspenses, o livro acaba não sendo tão marcante quanto poderia ser.
"Seu problema, Abby, é que você não sabe desenhar. É que você não sabe ver." p. 264
 A Fogueira é um thriller repleto de pontos positivos: traz uma protagonista complexa, um mistério instigante e uma leitura repleta de reflexões. Krysten Ritter só deixa a desejar com elementos que são muito encontrados no gênero e que podem apagar os pontos inovadores de sua obra. De qualquer forma, essa é uma boa leitura para os que já apreciam o gênero e pode ser ainda melhor para os que querem começar a se aventurar nele.


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