[Resenha] O Coletor de Espíritos | Raphel Draccon

Quando a chuva aflige o vilarejo de Véu-Vale pelo terceiro dia consecutivo, as ruas iluminadas por tochas ficam desertas; as janelas, uma a uma, se fecham; nesses dias, quem caminha pelas ruas de Véu-Vale caminha sozinho. Em O coletor de espíritos, novo romance de Raphael Draccon, um dos principais nomes da literatura de fantasia nacional, Gualter Handam, antigo morador do vilarejo e hoje um psicólogo prestigiado, se vê obrigado a retornar ao local que povoa seus pesadelos. Depois de tantos anos, ele terá de encarar antigos fantasmas e enfrentar uma força desconhecida e furiosa, numa jornada de sacrifício e redenção que poderá finalmente libertar todo um povo das garras do medo.
Fantasia | 272 páginas | Fantástica Rocco | 2017 | AmazonSkoob
"Em Véu-Vale, tudo que nasce, nasce do solo. Tudo é terra, e, como tal, apto a ser banhado. Tudo é história, viva, e o que história não é concreto, é efêmero. E o homem ama tudo que é efêmero." p. 9
  Raphael Draccon é um autor que, de forma surpreendente, sempre consegue se superar. Quando achamos que não dá mais para ele lançar um livro melhor do que o lançamento mais novo, ele vem com uma nova trama prontinha para nos surpreender de novo. Com O Coletor de Espíritos não foi diferente. Esta é uma história idealizada há alguns anos e aperfeiçoada com o tempo, de forma que podemos encontrar um misto de sentimentos e um enredo bem maduro. Gualter Handam, nosso protagonista, é um conhecido psicólogo que se viu cada vez mais distante de seu passado e, principalmente, de Véu-Vale, o vilarejo no qual passou parte de sua vida. Lá, os moradores vivem um terrível pesadelo no terceiro dia consecutivo de chuva, quando todos fecham as portas afim de evitar fantasmas já conhecidos, porém não menos aterrorizantes. Quando se vê obrigado a voltar para o local e reabrir antigas feridas, Gualter já espera que a situação não será nada confortável, porém não podia imaginar como seria decisiva para o futuro de Véu-Vale e seus habitantes.
"Gualter Handam sabia muito sobre muita coisa.
 Menos que naquele dia cruzaria com a morte." p. 13
 A narrativa em terceira pessoa, desde os primeiros momentos, se mostra bem impactante. Raphael Draccon possui uma escrita eletrizante, isso não há como negar, mas em O Coletor de Espíritos parece que ele deu ainda mais de si para que estivéssemos envolvidos com a trama desde a ambientação até a personalidade de cada personagem que conhecemos ao londo da leitura. Draccon sabe como instigar o leitor e manter o ritmo de leitura sem precisar se estender demais em detalhes ou correr com os diálogos. Tudo tem seu tempo e, quando você finaliza a história, percebe que estava tão envolvido com tudo que é como se apenas um vazio permanecesse. Como se você quisesse voltar para aquela atmosfera.
"O mundo nem sempre é como a gente quer." p. 60
 Gualter é um personagem que possui algumas barreiras que precisam ser quebradas. Ele parece ser bem-sucedido no que faz e, para muitas pessoas, isso seria suficiente. Mas, no caso de Gualter, questões antigas falam mais alto em diversos momentos e mostram que é realmente difícil seguir em frente quando se possui uma bagagem pesada do passado para carregar. Ele tentou evitar tais questões por tanto tempo que, de uma vez por todas, precisará colocar um ponto final nisso antes de iniciar um novo capítulo de sua história. E esse é apenas um dos motivos que o tornam um ótimo protagonista.

A profissão de Gualter e suas convicções são elementos muito positivos para toda a obra. O desenrolar da trama se torna ainda melhor com suas observações, dúvidas e descobertas e, quanto mais avançamos na leitura, mais nos sentimos conectados com ele e com Véu-Vale. Sim, com Véu-Vale. Isso porque os outros personagens, moradores do vilarejo, também são muito bem construídos e estão ali não apenas como um apoio para Gualter, mas como peças-chave para os mistérios, as lendas e os segredos. 

 O suspense é capaz de te deixar com vontade de virar as páginas o mais rápido possível em busca de respostas, ao mesmo tempo em que, no fundo, você gosta da sensação de se sentir dentro da história e não quer se despedir tão cedo. A melhor parte é que, no meio de toda a parte sombria de O Coletor de Espíritos, o autor não abandona mensagens marcantes e reflexões importantes que já são esperadas em seus livros. É impressionante como Raphael Draccon consegue nos fazer pensar sobre nossa própria vida mesmo em livros tão distantes de nossa realidade.
"Se o espírito estava mesmo quebrado, era hora de coletar as partes." p. 133
Instigante, envolvente e impactante, O Coletor de Espíritos é uma leitura repleta de detalhes e tensão. Raphael Draccon é ousado e apresenta personagens muito bem construídos e um vilarejo que seria um ótimo cenário para um filme de terror. O final deixa aquela maravilhosa sensação de dever cumprido e ainda somos presenteados com uma nota do autor que torna as reflexões da trama ainda mais marcantes. Foi uma leitura excelente, realmente especial. Para ser ainda melhor, só precisava estar chovendo.
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