[Resenha] Tartarugas até lá embaixo | John Green

A história acompanha a jornada de Aza Holmes, uma menina de 16 anos que sai em busca de um bilionário misteriosamente desaparecido – quem encontrá-lo receberá uma polpuda recompensa em dinheiro – enquanto lida com o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Repleto de referências da vida do autor – entre elas, a tão marcada paixão pela cultura pop e o TOC, transtorno mental que o afeta desde a infância –, Tartarugas até lá embaixo tem tudo o que fez de John Green um dos mais queridos autores contemporâneos. Um livro incrível, recheado de frases sublinháveis, que fala de amizades duradouras e reencontros inesperados, fan-fics de Star Wars e – por que não? – peculiares répteis neozelandeses.
Jovem Adulto | Drama | 256 páginas | Editora Intrínseca | 2017 | Amazon | Skoob
"[...] eu estava começando a entender que a vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar." p. 9
 Eu não sabia o que esperar de Tartarugas até lá embaixo. Evitei ler e assistir resenhas, mas foi inevitável me deparar com inúmeras fotos no Instagram e thumbnails no YouTuber que indicavam que a leitura estava sendo apreciada por diversos leitores. Entretanto, apesar de não saber o que esperar da história, eu sabia o que esperar de John Green: um misto de sentimentos. Nesse livro somos apresentados a Aza Holmes, uma adolescente que sofre de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) e, em cada ação, cada pensamento, cada palavra, ele se faz presente. Quando um empresário milionário desaparece em sua cidade, Aza e sua melhor amiga, Daisy, resolvem embarcar em uma tentativa arriscada de desvendar o sumiço. O problema é que além de nossa protagonista ter que lidar diariamente com a ansiedade e os pensamentos indesejados causados por seu transtorno, o bilionário é pai de um garoto que foi especial no seu passado.
"Eu nunca compreendia meu corpo... Aquilo era medo ou empolgação?" p. 38
 Esse livro está sendo vendido como o mais pessoal da carreira de John Green e não é a toa. O autor sofre de TOC e podemos sentir que cada palavra desse livro é importante para ele. Por saber apenas o básico sobre o transtorno, estar praticamente dentro da cabeça de uma pessoa - personagem - com essa condição mexeu bastante comigo. Tentar entender como funcionam seus pensamentos, se dar conta de como muitas ações são impulsivas, perceber como os sintomas podem trazer frustração... são muitas, muitas reflexões e informações que ficam nas entrelinhas e nos permitem entender como é importante trabalhar o medo e, principalmente, tentar entender o próximo antes de julgar qualquer atitude.
"Se dói ou não, é meio irrelevante." p.45
 É realmente bom acompanhar o aprofundamento da protagonista, compreender como sua condição afeta as pessoas à sua volta sem que ela perceba e se sentir atingido por cada mensagem, porém, apesar disso tudo, Tartarugas até lá embaixo apresenta uma leitura um tanto quanto lenta. Podemos perceber que a escrita de John Green está mais madura e a narrativa em primeira pessoa no deixa extremamente próximos a Aza, mas esse é um livro fino que acaba se tornando cansativo depois do terceiro dia de leitura. 
"Qual a diferença entre o que somos e o que temos? Talvez nenhuma." p. 79
 O autor foca realmente no TOC e todo o resto carece de desenvolvimento. Temos a realidade de Daisy que não é bem abordada, a preocupação da mãe de Aza que vai de chata a fraca em pouco tempo, as barreiras de Davies que são apresentadas de forma superficial, o desaparecimento de seu pai que traz um diferencial, porém poderia ter ido além... são muitas as possibilidades que não foram bem aproveitadas pelo autor. E não há problema algum em querer apresentar uma história sobre o transtorno, isso é ótimo, parabéns para ele por conseguir fazer isso tão bem, mas a sinopse garante uma história além disso e, infelizmente, não acontece. Até as "frases sublinháveis" que ela garante deixam a desejar - 80% das frases de efeito do livro são citações de outros autores.
"Pensamentos não são ações." p. 220
 Tartarugas até lá embaixo não chega a ser uma decepção, mas, por saber que John Green é capaz de ir além do que apresenta aqui, o livro acaba deixando a desejar. De qualquer forma, a trama é capaz de nos proporciona inúmeras reflexões, a abordagem do TOC é real e tocante, o último monólogo de Aza é realmente emocionante e percebemos que a trama é mais sobre a mente da personagem. É sobre como ela se sente presa ali e sobre como ela irá compartilhar seus sentimentos conosco.

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