Resenha | Mentes Sombrias, de Alexandra Bracken

Do dia para a noite, crianças começam a morrer de um misterioso mal súbito. Em pouco tempo, a doença se espalha e os que sobrevivem a ela desenvolvem habilidades psíquicas assustadoras.
Uma delas é Ruby. Na manhã do seu décimo aniversário, um acontecimento aterrador faz com que seus pais a tranquem na garagem e chamem a polícia. A menina é então levada para Thurmond, um acampamento que segue as diretrizes brutais do governo vigente. Seis anos depois, ela se torna uma das jovens mais perigosas de Thurmond, embora tenha que esconder isso a todo custo para a própria segurança. Quando a verdade vem à tona, Ruby desperta o interesse de muitas pessoas e precisa escapar às pressas. Fora dali, ela se alia a fugitivos de outros acampamentos e conhece Liam, que lidera uma fuga em direção ao único refúgio para adolescentes como eles. Por mais que queira fazer amigos e ter uma vida normal, Ruby sabe que isso não vai ser possível, porque nenhum lugar é seguro, e ela não pode confiar em ninguém - nem em si mesma.
Distopia | Ficção Científica | Jovem Adulto | 384 páginas | Editora Intrínseca | 2018 | Amazon | Skoob
Aquilo era medo. Não pelas crianças que corriam risco de vida, ou pelo vazio que as muitas vítimas já deixavam.
Era medo de nós... Os que sobreviveram.
Crianças e adolescentes separadas de acordo com suas habilidades. Uma nação destruída e desacreditada. Um governo cruel disfarçando suas verdadeiras intenções. Parece algo que você já leu/assistiu por aí, não é? Só que "Mentes Sombrias" não veio para ser apenas mais uma distopia. Em seu livro de estreia, Alexandra Bracken  nos apresenta um futuro no qual uma doença afeta todas as crianças dos Estados Unidos. A partir dos 8 anos de idade, a maioria das crianças começa a morrer, enquanto os sobreviventes começam a desenvolver habilidades poderosas. É então que o governo promete uma forma de reabilitação em acampamentos isolados para distanciar essas crianças da população (que os odeia e teme) e estudar seus cérebros que funcionam de maneira diferenciada. 
Não éramos mais humanos: nossos cérebros romperam esse molde.
 A primeira problemática já conseguimos identificar: um governo possivelmente corrupto que quer arrastar seus erros para debaixo do tapete e apagar as provas de seus atos equivocados. Ruby é uma das crianças que está sentindo os efeitos dessas escolhas e ainda não consegue compreender o que de fato se tornou. Após perder seis anos de sua adolescência em um dos acampamentos, toda sua capacidade é descoberta por uma Liga que promete proteger pessoas que, assim como Ruby, são mais poderosos do que podem imaginar. Como nossa protagonista já sabe que palavras bonitas podem não passar disso, ela logo se prepara para ter que lidar sozinha com uma realidade muito diferente da que ela conheceu um dia.
Eu tinha todo o poder e nenhum controle, toda a dor e nenhum benefício.
 Metade do livro se passa sem respostas concretas sobre a doença que causou todo esse caos e como o governo poderia ter desenvolvido ou combatido isso. A parte positiva é que estamos acompanhando tudo através dos olhos de Ruby, através de uma narrativa em terceira pessoa, e isso nos faz entrar ainda mais nesse universo. O que ela não esperava era encontrar pessoas que tornariam sua jornada menos solitária e mais emocionante.  Liam, Bolota e Zu  são personagens que trazem um diferencial para a trajetória de nossa protagonista e para a leitura, já que os responsáveis pelas primeiras descobertas de Ruby e dos leitores acerca da situação atual do governo, das famílias e das crianças dentro e fora dos acampamentos. Os três também nos ajudarão a compreender melhor a forma como essas crianças precisaram lidar com responsabilidades maiores do que o esperado e como sabem o valor de uma decisão correta. Eles podem até tentar não comparar suas experiências ou tentar ajudar uns aos outros, entretanto sabem que existem limites e aí está mais um dos pontos positivos do livro: o equilíbrio entre as relações pessoais dos personagens e o detalhamento da distopia.
— Você quer ficar comigo, não quer? — sussurrou ele. — Então fique. Vamos dar um jeito. Eu confio em você. Pode olhar dentro da minha mente, é isso que você vai ver lá.
 Não demora muito para que percebamos que  "Mentes Sombrias" é muito sobre as relações pessoas da Ruby, seu psicológico cheio de sequelas depois de viver seis anos presa e a percepção dela (e as nossas) a respeito do que aconteceu em seu pais. Alexandra Bracken apresenta uma protagonista que tem muito para amadurecer e personagens secundários que foram preparados para nos cativar e nos fazer compreendê-los de uma forma profunda. Nos colocamos no lugar deles, nos perguntamos como agiríamos se estivéssemos lá e, principalmente, vamos virando as páginas queremos mais e mais informações. A leitura te atrai tanto que é capaz de te deixar com pena de finalizá-la. E, ao virar a última página, seu mais desejo é que houvessem mais. 
— Vocês nem imaginam... — Do que sou capaz.
 A frase acima é dita por Ruby, mas, se "Mentes Sombrias" falasse, essa provavelmente seria a melhor frase para que definir a si mesmo. Esse é um livro que vai além do esperado, que surpreende e que te deixa ansioso pela continuação. São muitos os personagens trarão um diferencial para a história, são muitas as cenas de tensão e ação, são muitas as reflexões proporcionadas até pelos diálogos mais despretensiosos. Alexandra Bracken ainda prepara um desfecho de apertar o coração, mas que é, talvez, um dos pontos mais positivos dessa história complexa sobre pertencimento e dignidade.
Mentes sombrias tendem a se esconder por trás de rostos improváveis.

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