Resenha | Tarde demais, de Colleen Hoover

Para proteger o irmão, Sloan foi ao inferno e fez dele seu lar. Ela está presa em um relacionamento com Asa Jackson, um perigoso traficante, e quanto mais os dias passam, mais parece impossível enxergar uma saída. Imersa em uma casa incontrolável que mais parece um quartel general, rodeada por homens que ela teme e sem um minuto de silêncio, também parece impossível encontrar qualquer motivo para se sentir bem. Até Carter surgir em sua vida.  Sloan é a melhor coisa que já aconteceu a Asa. E se você perguntasse ao rapaz, ele diria que também é a melhor coisa que já aconteceu a Sloan. Apesar de a garota não aprovar seu arriscado estilo de vida, Asa faz o que é preciso para permanecer sempre um passo a frente em seu negócio e proteger sua garota. Até Carter surgir em sua vida.  A chegada de Carter pode afetar o frágil equilíbrio que Sloan lutou tanto para conquistar, mas também pode significar sua única saída de uma situação que está ficando insustentável. Colleen Hoover não tem medo de escrever sobre assuntos delicados e Tarde demais prova isso. Perpassando as formas mais cotidianas de machismo até as formas mais intensas e cruéis de abuso, a autora mergulha na espiral atordoante que é um relacionamento abusivo.
Romance | 384 páginas | Editora Record | 2018 | Amazon | Skoob
O amor não é encontrado. O amor encontra.
"Tarde Demais" é mais um livro de Colleen Hover que vem para nos fazer pensar. Dessa vez, a história é tão forte que ganhou uma carta aos leitores na qual a autora compartilha um pouco do processo de escrita e diz que "esta obra trata de assuntos muito mais sombrios que meus outros livros e inclui conteúdo adulto. Prossiga com cautela". O aviso serve para nos preparar para o conteúdo delicado, mas não nos adianta todos os sentimentos que nos serão proporcionados.
Estamos ultrapassando um limite e sabemos disso.
 A sinopse do livro já é bem explicativa, então vamos ao que interessa: meu maior elogio para Colleen Hoover é, mais uma vez, para sua escrita. Ela deixa claro na carta ao início do livro que essa é uma história escrita para curar um bloqueio criativo. Na mesma hora tentei diminuir as expectativas, manter a mente aberta para possíveis erros e me lembrar de relevar prováveis escolhas que poderiam deixar a desejar para mim. E eu consegui. Aproveitei o máximo de "Tarde Demais" e consigo reconhecer o quão importante essa história é. Principalmente porque aqui os mocinhos falham e o vilão é o personagem mais bem estruturado.

 Os capítulos intercalados por Sloan, Carter e Asa nos permitem um aprofundamento maior da trama, porém confesso que, no início, fiquei irritada por Colleen dar voz ao vilão. Eu entendia que o livro teria cenas pesadas, compreendi o fato de que ela queria que compreendêssemos como uma mente doentia funciona, mas fiquei com muito medo de ele se tornar uma vítima. O que posso dizer em relação a isso é que foi muito difícil seguir em frente conhecendo o outro lado da história. A construção de Asa é o que nos faz refletir ainda mais durante a leitura e abrir os olhos para a importância do amor e de uma base familiar, principalmente nos capítulos extras.

 Colleen escreveu epílogos (no plural!) e um prólogo depois de finalizar o livro, e esses escritos foram publicados na edição física na ordem em que foram escritos. Colleen deixa claro que quis assim, mas senti um bloqueio de minha parte. Não queria ficar prolongando tudo, nem me demorando mais com cenas um tanto desnecessárias, mas segui em frente e percebi um contraste desses capítulos com todos os anteriores.
Preciso lembrar a mim mesmo que estou aqui por um motivo... E este motivo não é Sloan.
"Tarde Demais" tem uma característica que pode ser considerada boa e ruim: a objetividade. Ao mesmo tempo em que, em diversos momentos, a clareza  pode ser um ótimo meio de nos passar as emoções que tornam nosso envolvimento com os personagens equilibrado, tal decisão pode tornar os personagens rasos e o relacionamento superficial. A pressão é muita, e eu tentei ter isso em mente a todo instante, principalmente por que entendo a posição de Sloan e não consigo nem imaginar como seria estar no lugar dela, porém não posso deixar de enxergar os muitos momentos sérios e de reflexões que são quase arruinados por um romantismo que deveria ser um ponto positivo só que acaba indo para outro lado.

 Sloan e Carter têm química, isso não há como negar. Aquele interesse que rola à primeira vista seguido pelo encontro inesperado que revela uma ligação que os protagonistas não gostariam de ter torna tudo ainda mais emocionante, preciso admitir. Você teme por Sloan (pela sua vida, pelo seu psicológico, pelo seu futuro), torce para que Carter consiga manter seu objetivo e ainda salvar Sloan e... espera. Aqui temos um problema. "Eu estou mesmo torcendo para que a protagonista se livre de um relacionamento abusivo e comece a depender de outro homem?". Pois é, eu me fiz essa pergunta. É horrível pensar que, mais uma vez, a garota precisa de um homem para salvá-la. E é ainda mais horrível porque, nesse caso, uma pessoa da vida real, que compartilha com Sloan o mesmo sofrimento físico e emocional, precisa de muita ajuda para consegui se reerguer. Mas, ok, eu entendo que, em um livro de Colleen Hoover, onde o romance é o ponto chave, é de se esperar que aconteça dessa forma. 
O amor não é encontrado na atração que você sente por alguém. O amor não é encontrado nas gargalhadas que vocês dão juntos. O amor não é encontrado nem nas coisas que vocês têm em comum. O amor não é, de nenhuma maneira, formato ou dimensão.definido nem encontrado no êxtase que traz para duas pessoas.
"Tarde Demais" pode não ser um dos melhores romances de Colleen Hoover, mas sinto como se esse não fosse seu objetivo. Os epílogos e capítulos extras publicados na edição física na ordem em que foram escritos (não necessariamente na ordem dos acontecimentos) talvez sejam provas disso. Esse é um romance sobre se colocar no lugar do próximo, sobre abnegação e sobre liberdade. É um romance com erros, mas um romance muito reflexivo, com frases e mensagens dignas de Colleen Hoover e, principalmente, com cenas que nos levam da angústia ao otimismo. 

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